29.4.07

013. Tilly And The Wall - "Fell Down The Stairs"

do álbum "Wild Like Children" (2004)



Como se sabe, alguns lobos têm pele de cordeiro e fazem sapateado. Os Tilly And The Wall pertencem a essa espécie irresistível que nos traz corações partidos como se fossem presentes coloridos. Como papel de embrulho trazem melodias luminosas e vozes inocentes em coro como uma celebração. Mas lá dentro cabem todos os erros, todos os desvios perigosos, todos os objectos cortantes, toda a melancolia do que não volta. E não nos importamos que nos devorem porque nos falam do que mais desejamos com uma insolência que não ousamos e há ali uma luxúria e uma linguagem de corpos dirigindo-se à exaustão e um apelo a uma dança tão funda ao ritmo improvável do sapateado e dos beijos imensos e de novo as vozes contradizendo com doçura os poemas de uma juventude em estado de perda. Mas tão viva, ardendo, esgotando-se. Essa combustão, que nos lançam como uma prova de vida, é o que não podemos recusar. And we will write all over your walls/ And we will dance to no music at all.


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28.4.07

012. James Hindle - "Whispering Jesse"

do álbum "Take Me Home: A Tribute To John Denver" (2000)



O álbum que Mark Kozelek organizou como tributo a John Denver tem de tudo: músicas bonitinhas, músicas inesquecíveis, músicas irrelevantes. A maior surpresa é ouvir Bonnie 'Prince' Billy, o mais insuspeito dos nomes presentes, na última categoria. Na primeira está James Hindle. Quem? Pois. James Hindle é o folk baladeiro do costume, melodias não exageradamente doces, guitarra de acordes minimalistas, um ou outro jogo de cordas, apontamentos de nostalgia na voz. Nada que o condene. Nada que o destaque. Mas "Whispering Jesse" tem um sabor de Verão sem mar à vista e esse tom de luz intensa sobre corpos indolentemente apaixonados cativa. The long days of summer/ Warm nights of loving her beneath the bright stars. Palavras banais que a maioria já escreveu com as mãos. Uma pequena bonita canção para levar no bolso, portanto. Nunca se sabe quando é que poderá fazer falta esse sorriso.

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24.4.07

011. Grant Lee Buffalo - "Stars N' Stripes"

do álbum "Fuzzy" (1996)



Os Grant Lee Buffalo não são uma one hit wonder porque nunca tiveram um hit. Mas mereceriam, se quinze minutos de fama não fossem mais inglórios do que a pequena obscuridade. Não se pode exigir muita comoção a uma banda mediana que pertence à categoria mas-conseguimos-uma-linda-canção. Tão bonita. Gastaram as falhas em tudo o resto menos nesta faixa compassadamente funda. À volta ergueram canções pequenas e sem memória, canções em que ninguém se esquece de respirar. Isto, sabendo nós que é o desacerto da respiração que marca o centro das coisas. Neste caso basta um pouco de silêncio e meia dúzia de segundos para perceber: poucas vezes se ouviu o desequilíbrio caminhar com passos tão seguros.

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24.7.06

010. Azure Ray - "Displaced"

do álbum "Azure Ray" (2001)



As Azure Ray são um estado próximo do sonho. A mesma semiconsciência, o mesmo perigoso encantamento. As Azure Ray também são um estado próximo da infância, se a palavra incluir algodão doce e canções de embalar desfiadas em sussurros até adormecermos. O problema, se há algum problema em morrermos de amor, está no modo como nos entregamos sem uma pergunta. Uma imprevidência para quem dispensa os espinhos de uma rosa. Não que procurem ser cruéis, mas também não sabem ser inofensivas, as duas meninas. Maria Taylor e Orenda Fink equilibram na ponta da língua palavras como torrões de açúcar, mas tanta doçura leva-nos facilmente aos lugares escuros a que nos tínhamos desabituado. O álbum que antecede todos os outros antecede qualquer mágoa apenas por alguns segundos. "Fill these spaces up with days/ In my room you can go you can stay". Começam por este convite mas é preciso ouvir como o cantam. Depois podem tentar ser indiferentes. M
as precisam preparar-se para perder.

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9.4.06

009. Antony & The Johnsons - "The Lake"

do EP "The Lake" (2004)



O que eu queria mesmo era ver e ouvir as CocoRosie. Sonhava com aquele momento há meses. O resto, um rosto andrógino de olhar frágil no cartaz, tinha um nome que eu conhecia desconhecendo a sua música. A luz apagou-se depressa e no pequeno palco um gigante. A última coisa que se espera é aquela voz. A última coisa que se espera é aquela voz suspendendo-nos desde o início, devolvendo-nos o movimento apenas no fim da canção para que interroguemos o corpo sobre aquele torpor. Começou com "The Lake". Talvez tenha sido quase desleal da parte dele ter começado tão fundo, mas foi o que bastou. Depois foram os meses ansiosos e recompensados à espera de "I Am A Bird Now" (2005). Mas antes, insuperável, ouvi "The Lake" e - o autor que me desculpe - devia ser proibido reparar na letra. A música e a voz são de tal modo perfeitas que a ferida não devia ser poupada a ninguém, mas infligida à medida
. A verdade é que, por vezes, a ferida é um acto de generosidade.

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8.4.06

008. Devendra Banhart - "At The Hop"

do álbum "Niño Rojo" (2004)



"Put me in your suitcase/ let me help you pack/ 'cause you're never coming back". Não me digam, se souberem esquivar-se de versos assim. Chama-se a isto negação. Não é muito adulto, bem sei, mas não quero saber da possibilidade de alguém não se desarmar perante uma entrega quase infantil. Algum desequilíbrio em mim houve ao descobrir esta canção e cheguei mesmo a dizer que este álbum era melhor do que o anterior "Rejoicing In The Hand" (2004). Não é, mas o génio de Devendra Banhart leva a estes erros de julgamento. Impressiona a facilidade. Com uma guitarra nas mãos, cada canção parece uma extensão da respiração. É um compositor hiperactivo e nem por isso tende a errar uma nota. Parece facilmente classificável - folk. Mas esse também é o engano. Não percebeu nada quem não perceber o muito que se esconde por detrás da aparente simplicidade, o que de tão próprio Devendra coloca empoleirado em cada palavra.


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7.4.06

007. Broken Social Scene - "Anthems For A Seventeen Year-Old Girl"

do álbum "You Forgot It In People" (2003)



Às vezes dou por mim a pensar que este álbum não é assim tão bom. Depois reparo no pequeno crime que me corre na boca e penso naqueles três ou quatro momentos que, em qualquer lugar, em qualquer altura, valeriam por um álbum inteiro. Quando a beleza sufoca. Podia ser o subtítulo. Antes de "Pitter Patter Goes My Heart" nos encerrar o coração, correm-nos doze canções junto aos ouvidos. "Anthems For A Seventeen Year-Old Girl" foi o meu primeiro choque. Fiquei obcecado durante semanas. Actualmente disfarço melhor. Acho que a canção é toda em tons de vermelho e parece-me que há a promessa de um beijo mas as bocas nunca estão bem focadas
. E como é que se ouve "Lover's Spit"? Como é que se escolhe sorrir ou doer? Mais tarde, em "Bee Hives" (2004), chamaram a Feist para responder a essa pergunta e fizeram uma versão em que os socos nos atingem todos em câmara lenta. Sei que parece estranho mas os Broken Social Scene conseguem. Fazer-me escolher o soco.

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6.4.06

006. Lisa Germano - "Trouble"

do álbum "Geek The Girl" (1999)



Alguns momentos têm uma atmosfera tão densa que respirar se torna consciente. O truque, quase sempre, é respirar lentamente. Foi por aqui que entrei no mundo de Lisa Germano e não sei se cheguei alguma vez a sair. Não pesaram, não podiam pesar, os pequenos passos em falso ouvidos depois. Se aqui surgir uma interrogação, a resposta está no sentido original de uma palavra: adorar. É provável que tenham bastado dois minutos. Os primeiros segundos de "Geek The Girl" são enganadores. Depois vêm os primeiros acordes de guitarra como uma porta para um estado hipnótico que dura doze canções. Lá dentro está muito escuro e quase não existem janelas mas "Trouble" pode ser a canção mais doce alguma vez cantada.
"...A Psycopath" pode ser a mais estranha (e o mais próximo que muitos estarão de um alucinogénio). Apetece-me sublinhar com um marcador grosso "Sexy Little Girl Princess" mas não sei se saberia depois evitar todas as outras canções. Não me recordo se a alguma fui imune.


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5.4.06

005. Low - "Back Home Again"

do álbum "Take Me Home: A Tribute To John Denver" (2000)



Diz-se "Low" e desata tudo a gritar: "slowcore, slowcore!" É uma impertinência, gritar um estado perto do silêncio. Há algo de profundamente desajeitado nessa tentativa de atribuir uma palavra quase clínica à música delicada dos Low. Nos Low até o nome nos fala baixinho. Isto são só três quartos da verdade. O outro quarto podia ser o muito bom "The Great Destroyer" (2005), que mostra uns Low mais eléctricos e ásperos. Mas o resto. O resto são canções com profundidade, expressão que não nos diz nada se não conseguirmos imaginar canções cantadas no escuro por uma voz que parece demorar cada palavra. De todas as que lhes conheço, a que leva mais longe o aperto no coração é uma música roubada. Não sei se conseguirão alguma vez superar "Back Home Again". Sei que não precisam.

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4.4.06

004. Joanna Newsom - "This Side Of The Blue"

do álbum "The Milk-Eyed Mender" (2004)



Foi um acidente. Só depois da escolha reparei que Joanna Newsom confessa nesta canção o sentido da sua música: "and i find myself knowing the things that i knew/ which is all that you can know on this side of the blue". O mundo de Joanna Newsom é surreal. Isso não quer dizer que nos dê algo de novo. Isso quer dizer que nos desmonta. Basicamente, arranca-nos do peito o que somos, pensamos, sentimos, e devolve-nos tudo intacto. Só que por uma ordem diferente. Quando nos colocam o chão noutro lugar, tendemos ao desequilíbrio. É natural, o mundo cá dentro consegue ser sempre mais estranho do que o mundo lá fora. Com Joanna Newsom começamos ou acabamos aí, num passo em falso sobre nós. A outra ponta da canção é a doçura. De vez em quando, a voz tem arestas e não serve a todos. Mas não podia ser de outro modo - a definição de loucura é sempre muito pessoal.

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3.4.06

003. Emiliana Torrini - "Snow"

do álbum "Fisherman's Woman" (2005)



É a voz. O que por vezes me asfixia é a sua voz. Snow é um mau exemplo. Vai muito além disso, a devastação que traz. Snow é uma pequena peça preciosa. Parece tecida na ponta da língua. Podia ser a única canção de Emiliana Torrini e já lhe estaria grato. De resto, o mundo da cantora islandesa tem uma beleza irregular. Às ressonâncias electrónicas iniciais parece ter preferido um desprendimento quase folk e em ambos os casos parece cantar demasiado a superfície. Claro, a voz, sempre a voz, consegue tornar irrelevante a melodia. Mas o que eu queria era que ela sempre se afundasse.

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2.4.06

002. Scout Niblett - "Wet Road"

do álbum "Sweet Heart Fever" (2001)



O primeiro contacto pode ter a sua dificuldade. Os primeiros álbuns de Scout Niblett estão cheios de momentos demenciais. Também estão cheios de lâminas e momentos transbordantes de doçura. Existem momentos de caos pouco audíveis e grandes canções. Existe uma evidente solidão numa voz que parece cantar sempre para um alguém não muito presente. No último álbum, Kidnapped By Neptune (2005), Scout está mais bem comportada, menos performer, cantora/compositora por inteiro. O que, no fundo, não altera nada. Continua a haver um sentimento de buraco negro em que se mergulha ao ouvi-la. Wet Road, por exemplo, é uma canção difícil de interromper. Custa falar. Durante e talvez mesmo alguns segundos depois. Sweet Heart Fever é outra. Por exemplo.

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1.4.06

001. CocoRosie - "Not For Sale"

do álbum "Le Maison de Mon Rêve" (2004)



O texto mais bonito do álbum mais bonito de 2004 diz "you can leave me in the corner/ where you found me/ i'm not for sale anymore" e em apenas três versos diz uma história inteira, risco habitual quando se canta com despojo um ponto final - tendemos a ouvir o que não ouvimos, cada beijo antes do fim. Só podia começar por aqui, pela encenação de um fim e por uma adoração. As manas Casady abandonam-me sempre num lugar diferente. Esse desconforto, esse deslocamento do lugar onde começo, é o que a uma canção posso pedir de mais longínquo. O mundo delas é estranho e doce e a dor também faz parte e se versos como "undressed you with my eyes i have/ maybe even raped you/ in a dark and eerie corner of my mind" me perturbam, não é tanto pela violência como pela ternura. Só podia mesmo começar por aqui.

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Bitter Sweet Songs

vou fingir este lugar. vou ignorar como são rarefeitas estas músicas que fui deixando do outro lado, vou desfiar-lhes à volta pequenos textos incompletos. como se me pertencessem. não sei porque tento esta irrelevância. é apenas muito meu, este desejo por fragmentos. (...)